Homilia de Dom Alberto Taveira sobre a formação sacerdotal

08 de fevereiro de 2010
Centro de Estudos Superiores Mater Dei
Arquidiocese de Palmas

“Tendo atravessado o lago, foram para Genesaré e atracaram. Logo que desceram do barco, as pessoas reconheceram Jesus. Percorriam toda a região e começaram a levar os doentes, deitados em suas macas, para o lugar onde ouviam falar que Jesus estava. E, em toda parte onde chegava, povoados, cidades ou sítios do campo, traziam os doentes para as praças e suplicavam-lhe para que pudessem ao menos tocar a franja de seu manto. E todos os que tocavam ficavam curados” (Marcos 6, 53-56).

Este é o fundamento de nossa experiência vocacional: nós somos chamados a estar com o Senhor. Nos últimos dias a liturgia nos mostrou os apóstolos buscando com Jesus um lugar afastado (Mc 6,30-34), até com o desejo de descansar! Eles são testemunhas do bem que Jesus faz a todos que foram chamados a uma experiência com Ele.

A raiz do nosso chamado é estar aos pés do Senhor. Estão aqui presentes várias pessoas ligadas a essa graça: aqueles que chegam agora para o Curso Propedêutico, os que iniciam a filosofia, a teologia, os seminaristas que continuam sua estrada formativa, como também aqueles que se encontram inseridos na vida eclesiástica: a equipe do Seminário, sacerdotes responsáveis pela formação, religiosas e missionários. O que deve estar na base da experiência do Seminário e do Centro de Estudos Superiores Mater Dei? O grande fundamento é a experiência do seguimento de Jesus. De fato, é viver a sua palavra. Sem tais fundamentos, o edifício cai. Todos nós somos chamados a tal experiência de proximidade, a ser cultivada dia a dia. A vida espiritual não é um departamento da formação, mas o fundamento, sua raiz. É o elemento que garante a unidade do processo formativo, a mística que sustenta a preparação ao sacerdócio. Tudo o que se estuda aponta para essa dimensão profunda que é a comunhão no mistério de Cristo. Este é o fundamento, a primeira dimensão da formação (1), sem a qual todo o resto perde o sentido.

A formação do clero diocesano visa a caridade pastoral. Nós vivemos para pastorear. E aqui tanto os seminaristas das Dioceses da Província Eclesiástica de Palmas quanto os que são chamados ao trabalho missionário segundo os Carismas das Comunidades Novas, serão ordenados padres diocesanos. Seremos padres no pastoreio direto do povo de Deus! Somos formados para ser pastores. E a santificação de nossa vida acontecerá na experiência do pastoreio. No Evangelho que ouvimos, Jesus se importa concretamente com as pessoas que dele se aproximam, mostrando-lhes seu zelo, quando todos eram curados. Ninguém passava em vão ao seu lado. E sendo discípulos dele, chamados depois a ser sacramentalmente a presença do Senhor Jesus, o que se espera de nós? Viver fora de nós mesmos, voltados para essa perspectiva de serviço. Nós somos pastores para servir ao rebanho. Ninguém encontrará o sentido de sua vida vivendo para si, mas somente para o outro. E é claro, a solicitude pastoral não brota como uma mágica no dia da ordenação. Nós nos exercitamos para sermos pastores segundo o Coração de Cristo. O Ano Sacerdotal nos faz descobrir a fidelidade de Cristo para depois descobrirmos a fidelidade do sacerdote. Esta deverá ser exercitada e aprofundada durante o tempo da formação.

A perfeição do ser humano não está em mim, ou em qualquer homem ou mulher. Eu preciso olhar para Jesus Cristo para enxergar o modelo do homem. O que se espera de uma formação sacerdotal? Homens íntegros na sua personalidade, na retidão de seu comportamento. Homens íntegros na sua afetividade, na sua sexualidade. Olhando para Jesus, que fez bem todas as coisas, como se faz necessário ser honestos no nosso caminho de formação! Não podemos fazer o povo de Deus sofrer por causa de nosso testemunho negativo. A exigência dessa honestidade básica é para que você se prepare bem. É mirando na retidão do Senhor que seremos homens dignos de confiança. Se não se leva a sério a dimensão humana, você pode ser um excelente organizador de uma Paróquia, mas não terá brilho, não será uma pessoa digna de confiança, porque no fundo as pessoas vão dizer: “parece que ele não acredita naquilo que fala”. Seja homem na medida do Cristo! Seja gente, capaz de amar na medida de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Ninguém poderá viver tais dimensões da formação no isolamento. Nós não somos pessoas isoladas no mundo, como não nos sustentamos sozinhos. E isto vale para toda a vida sacerdotal. Na teologia do Concílio Vaticano II, vida sacerdotal é compreendida primeiro como experiência de comunhão no presbitério. Eu acalento o sonho de uma vida sacerdotal não confinada em uma paróquia, como se fosse uma capitania hereditária, uma propriedade, que considero uma tentação. Que bom se pudéssemos colocar uma perspectiva diferente na cabeça dos padres: desejo e disposição para a comunhão. Não porque o bispo determinou que ficassem dois padres em uma mesma paróquia, mas porque você sente em seu coração a necessidade de ser um homem de comunhão.

Permito-me partilhar com todos duas realidades pessoais. Nestes 36 anos de padre, Deus me deu a graça de nunca morar sozinho. Como Padre ou Bispo, sempre tive a possibilidade de compartilhar a vida, numa experiência de comunhão. Quando for a Belém terei a oportunidade de conviver com o Arcebispo Emérito Dom Vicente Zico, um homem de 83 anos que conheci ainda como padre.Diante do clero de Belém, eu disse que ele será como o Anjo da Guarda da Arquidiocese, com todos os poderes. É que também para a nova fase de minha vida, quero ter perto de mim um irmão que me leve a uma vida de partilha. Mas aqui mesmo, os Bispos da Província Eclesiástica de Palmas tivemos a graça de formar chegamos a um grupo coeso, de gente que se quer bem. Acredito que os quatro levarão para frente o sonho de unidade no Tocantins. Como é bom vivermos juntos! Como é bom conversar, brincar, cultivar a comunhão entre nós. A Província Eclesiástica de Palmas só tem a ganhar se caminhar nesta direção. O próximo arcebispo encontrará plantada essa realidade construída pelos quatro irmãos que aqui ficam.

Uma última dimensão, não menos importante: quando Jesus anda para lá e para cá com os discípulos, ele tece uma escola de formação. É a dimensão intelectual. Jesus formava, segundo o evangelho de São Marcos, enquanto caminhava ao longo do Rio Jordão, até chegar a Jericó e de lá subir para Jerusalém. Cada encontro era uma oportunidade de formação. Nós também já fizemos um considerável percurso formativo. Não alcançamos ainda tudo aquilo que desejamos para a formação sacerdotal em nosso Seminário e no Centro de Estudos Superiores Mater Dei, mas o caminho feito até aqui foi assumido com seriedade. Não aceitem a mediocridade como medida da própria vida. Deus e seu povo não merecem padres medíocres. Não se permita nada que não seja menos que o máximo! De fato, “para Deus, no mínimo devemos dar o máximo”(2) . Vocês serão sacerdotes em um mundo extremamente provocante. Não serão padres em um mundo fácil. O mundo a ser evangelizado é desafiador, mas positivamente desafiador, mas o evangelho é a força de Cristo para nós.

O que desejo é que este Seminário se consolide cada vez mais, e seja um Centro de excelência na formação sacerdotal. Nenhuma pessoa envolvida nesse processo pode deixar de empenhar todo o seu esforço pessoal para que isso aconteça. A obra não me pertence, e a bandeira está nas mãos de vocês. Todo o esforço deve ser feito, porque tenho certeza que a semente lançada é de boa qualidade.

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará


(1)Cf. Diretrizes para a Formação Presbiteral, no novo texto aprovado pelos Bispos do Brasil, especialmente nos números 246 a 346, na Seção sobre as Dimensões da Formação nos Seminários.
(2)Mons. Gilberto Delfina, Fundador dos Padres Salvistas.