Sua graça para comigo não foi estéril

           Meditando sobre a Liturgia deste 5º Domingo do Tempo Comum, especialmente na Segunda Leitura (I Cor 15, 1-11),  Espírito Santo me fez rezar com esta expressão do apóstolo Paulo: “É pela graça de Deus que sou o que sou. Sua graça para comigo não foi estéril” (v.10). Paulo diz ainda que a graça de Deus tem trabalhado muito através da sua vida. Isto é maravilhoso e deve nos inquietar acerca também da nossa missão na evangelização. Devemos nos perguntar: “Como tem a graça de Deus trabalhado em nós? O que temos feito para que a nossa vida seja conforme aquilo que cremos?. Caso contrário, pode ser que a graça de Deus seja tímida em nós e definhe aos poucos.
          Todos nós o sabemos que o mais difícil não foi deixarmos tudo, mas fazer de Deus o nosso tudo, permitir que a sua graça se torne fecunda em nós a cada novo dia. Às vezes me pergunto o que nos deixa tão tímidos e tão acomodados diante do cenário dramático em que se encontra o homem ao nosso redor. Às vezes agimos prontamente em dizer que somos amigos de Deus, que rezamos, que conhecemos a Sua Palavra, que o amamos e que nos orgulhamos de sermos batizados, católicos, “consagrados”, membros desta ou daquela comunidade de fé e ainda que queremos dar a vida pelo Senhor, mas bem sabemos que no concreto das nossas vidas somos insensíveis aos nossos irmãos, de forma especial, aos que não conhecem o amor de Deus. Então a graça cai na esterilidade. Deus grita em nós pelo homem e nos escondemos deste homem.
         Eu diria: E quem não tem medo de evangelizar? Por acaso é fácil sair de si, pegar um panfleto, sair às ruas e abordar as pessoas, principalmente no mundo individualista e avesso a todo desconforto e situação inoportuna quando se tratam de fé, religião e Deus? Não, não é fácil! Não precisamos esconder! Mas isto não pode ser desculpa para quem se diz ter encontrado a Cristo e Seu amor de misericórdia quando não merecíamos e na nossa revolta e fuga, também um filho de Deus que talvez estivesse com medo, mas não se omitiu da graça que recebera, teve a coragem de nos evangelizar, de nos comunicar este amor de Deus, seja qual for o lugar e a circunstância em que fomos iluminados também da nossa cegueira.
        Supliquemos ao Senhor que o Seu Espírito venha em nosso socorro, mas “a graça pressupõe a natureza”, ou seja, tenho de sair de si, de colaborar com a graça, de deixar de dar desculpas para não evangelizar. Tenho que me dispor a ir até o outro ainda que o medo, a timidez, a pouca experiência e até o fracasso nos exponha. Evangelizar é uma necessidade que cresce em nós na medida em que vamos dando passo. Lembremos: existe uma parcela incalculável de homens e mulheres que só serão atraídos e pescados para Deus pela abordagem pessoal. Nada se compara ao sentir-se olhado nos olhos e escutar: “Jesus ama você meu irmão e ele te chama a conhecê-lo mais de perto!” Nada se compara a escutar de uma pessoa este pedido: “Por favor, posso rezar por você?”. Até aquele que não crer por convicção se dobra diante da docilidade com que o amor de  Deus o contagia. Nada se compara a quando ouvimos uma vida evangelizada dizer: “Obrigado! Eu não sabia que Deus me amava tanto assim!”
      Também quando nossa evangelização é um aparente fracasso, a graça de Deus não se torna estéril. A indiferença de quem nos ridiculariza ou de quem reage com agressividade e rejeição não deve nos roubar a paz e a certeza de que ali está um coração sedento de Deus, mas que ainda não consegue respirar por causa de tantos venenos. O oxigênio da graça permanece naquela vida ainda que aparentemente tenha sido um fracasso. Não podemos nos omitir na evangelização.  Quem encontra a Jesus encontra a vida! Paulo se considerou um abortivo exatamente porque não conhecia o amor de Deus. Que isto nos faça pensar no estrago que faz a nossa omissão na evangelização. Que o Senhor nos ajude para que a Sua graça não se torne estéril nas nossas vidas. Assim seja!  




Antonio Marcos
Missionário na Comunidade de Vida Shalom



http://www.comshalom.org/blog/antoniomarcos/?p=1787