O Santo Cura d’Ars, ícone da vida sacerdotal


DOM FERNANDO GUIMARÃES
por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica
Bispo Diocesano de Garanhuns
Carta Pastoral aos Padres e Seminaristas na Quinta-Feira Santa de 2010


O SANTO CURA D’ARS, ÍCONE DA VIDA SACERDOTAL
Prezados Filhos e Irmãos caríssimos no Sacerdócio de Cristo,
Celebramos hoje a instituição do Santíssimo Sacramento da Eucaristia e comemoramos também o nosso Sacerdócio ministerial, tão intimamente ligado ao Augusto Sacramento. Nesta ocasião tão solene, desejo partilhar com o meu Presbitério uma reflexão sobre a figura ímpar de São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, no contexto do 150º aniversário do seu “dies natalis” e do Ano Sacerdotal que, para comemorá-lo, foi instituído por nosso Santo Padre o Papa Bento XVI.
Ao convocar este Ano Sacerdotal, o Santo Padre pretendia “fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo”, pedindo à Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes, que suscitasse “no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura d’Ars”. Concluía o nosso Santo Padre, referindo-se ao Santo: “Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre”. [i]
Seguindo a proposta do Santo Padre, desejo apresentar-lhes o Cura d’Ars como um ícone eloquente da vida e da santidade do padre diocesano. Para isto, como em um daqueles ícones orientais compostos de diversos quadros, esboçarei alguns traços característicos daquele que é o Patrono dos padres. Em seguida, desenvolverei algumas linhas principais que, a propósito da santidade do clero, transparecem do documento Presbyterorum ordinis, do Concílio Ecumênico Vaticano II, ainda hoje um marco obrigatório nesta matéria. Finalmente, a guisa de conclusão, em uma terceira parte referir-me-ei a alguns desafios que enfrenta a santidade do clero diocesano na realidade atual. Pretendo reafirmar alguns elementos que considero importantes para a superação da crise que, muitas vezes, ronda aqueles que, por vocação, são chamados a encarnar sacramentalmente, no meio dos fiéis, a imagem do Cristo, Bom Pastor.
PARTE I
O SANTO CURA D’ARS: UM ÍCONE SACERDOTAL
João Maria Vianney, conhecido no mundo inteiro como o Santo Cura d’Ars, nasceu em Dardilly, perto de Lião (França), no dia 8 de maio de 1786, em uma família de camponeses muito religiosa e generosa para com os pobres. Consegue realizar a sua vocação sacerdotal graças ao Padre Balley, pároco de Écully, que apoia com uma constância iluminada a vocação do jovem, durante as numerosas provas e dificuldades que teve que enfrentar para se tornar sacerdote. Ordenado padre aos 29 anos, o Bispo envia-o à longínqua paróquia de Ars, na região de Dombes, apelidada então “a Sibéria da diocese de Lião” pelo seu clima úmido e insalubre e pela situação de abandono em que se encontrava. João Maria Vianney chega a Ars no dia 13 de fevereiro de 1818 e ali, durante 41 anos, exerce seu ministério sacerdotal, consumando-se no amor e no dom de si em prol da comunidade que lhe fora confiada, testemunhando com a sua vida o seguimento mais radical de Cristo Bom Pastor, Sacerdote e Vítima pela salvação das almas. Ele não apenas consegue fazer reflorescer a vida cristã na sua paróquia, através da pregação eficaz, da catequese constante e da adoração prolongada diante do Sacrário, mas transforma Ars em um modelo de vida cristã para as paróquias vizinhas. Ars e seu Cura logo se tornam meta de uma incessante peregrinação e o confessionário do Santo é assediado por todo tipo de pessoas, provenientes de todas as regiões da França e até de outros países. Morre, consumado pelo amor apostólico e pelas penitências, no dia 4 de agosto de 1859. Beatificado pelo Papa São Pio X no dia 8 de janeiro de 1905, foi canonizado pelo Papa Pio XI em 31 de maio de 1925. Pelo mesmo Sumo Pontífice, João Maria Vianney foi proclamado “Patrono de todos os Párocos” em 29 de abril de 1929 e, no 150º aniversário de sua morte (1859-2009), o Papa Bento XVI proclamou-o também “Patrono de todos os sacerdotes do mundo”.
Em atitude de admiração contemplativa, procuremos traçar agora os elementos que compõem o nosso ícone.
Ao centro, coloco em destaque o episódio da chegada de São João Maria Vianney ao vilarejo de Ars, no dia 13 de fevereiro de 1818, imortalizado no pequeno e sugestivo monumento hoje situado à entrada da cidade.[ii] O fato é conhecido: após uma difícil viagem a pé por estradas desconhecidas e nas quais perdeu-se várias vezes, Vianney encontra finalmente um menino e pergunta-lhe como fazer para chegar a Ars. A frase que o sacerdote responde a Antoine Givre, que lhe indica o rumo certo, é todo um programa de vida sacerdotal: “Pois bem, meu amigo, você me mostrou o caminho para Ars, eu vim para lhe mostrar o caminho para o céu”.[iii] Definitivamente, não há outro sentido nem finalidade mais importante no ministério sacerdotal: o que se espera do padre é que ele indique sempre os caminhos do céu, ou seja, como acolher e realizar, em nossa pobre existência humana, o mistério transcendente que se encontra na sua origem e que deverá constituir eternamente – somente ele – o seu termo.
Continuemos a compor nosso ícone ao redor deste quadro central. Creio poder fazê-lo identificando alguns objetos que simbolizam outros momentos igualmente importantes ou, se preferirem, os meios que o Santo Cura d’Ars utilizou para realizar a sua missão sacerdotal.
O primeiro quadro do nosso ícone será constituído, sem sombra de dúvida, pelo sacrário da igrejinha de Ars tendo, aos seus pés, o velho e usado breviário de Vianney. Sim, a oração do Santo Cura d’Ars encontra-se no centro de sua vida inteira, ela é o centro do seu ministério sacerdotal, o segredo da sua fecundidade apostólica, como pressentiram muito bem e desde o início as pessoas simples que viveram com ele. Um de seus primeiros paroquianos, Jean Pertinand, testemunhava, no processo de beatificação: “No início do seu ministério em Ars, ele se dirigia à igreja regularmente às quatro horas da madrugada e permanecia em adoração aos pés do altar-mor até o momento da missa, que ele celebrava às sete. Durante todo este tempo, permanecia de joelhos, sem se apoiar, e de vez em quando lançava um olhar para o sacrário com uma expressão tal, que os habitantes do lugar acreditavam que ele via Nosso Senhor”. [iv] A oração pessoal era a alma do ministério de Vianney. Não somente no início, mas também quando se tornou célebre e procurado e o pobre padre só conseguia encontrar curtas e fragmentadas parcelas de tempo para a oração pessoal, todo consumido pelo atendimento aos fiéis. A um sacerdote que lhe perguntava como fazia para manter o espírito de oração ao longo de sua jornada tão cheia de fadiga, respondeu: “ Desde o início do meu dia, esforço-me por me unir intimamente a Nosso Senhor e faço tudo o mais com o pensamento desta união”.[v] Em suas memórias, escreve Catherine Lassagne, a sua colaboradora mais próxima: “De vez em quando, lançava um olhar para o sacrário, com um sorriso tão doce que parecia ver Nosso Senhor”.[vi] Esta sua atitude de oração é hoje imortalizada na estátua de Cabuchet, situada na capela da relíquia do coração de São João Maria Vianney em Ars. Ela inspira-se nas declarações do Irmão Athanase, que lemos nas atas do processo de beatificação do santo: quando descreve o modo com que o Cura d’Ars se preparava na oração para a celebração da Santa Missa, esta testemunha ocular nos informa: “Ele permanecia imóvel, ajoelhado sobre o chão do coro, as mãos juntas e os olhos fixos no sacrário e não havia nada que fosse capaz de distraí-lo nestes momentos de intimidade com Deus”. [vii]

Já o seu velho breviário, exposto ainda hoje na casa paroquial da cidade de Ars, traz as marcas visíveis do seu uso constante, testemunho eloquente de sua vida de oração na intimidade com Deus: “Com que angélica piedade recitava o seu breviário!… Não tenho palavras para exprimir tudo isto… Eu mesmo, diante dele, experimentava sentimentos de respeito e de veneração em um grau que nem consigo expressar”. [viii] Os testemunhos são abundantes: “Ele recitava seu ofício sempre de joelhos… e de vez em quando olhava o sacrário com um sorriso cheio de doçura que parecia ver Nosso Senhor. O servo de Deus recitava seu ofício na igreja e de joelhos. Mostrava-se tão recolhido que não percebia nem a multidão que o rodeava nem o barulho que ela fazia”. [ix] O Santo costumava dizer: “O breviário era leve como uma pluma aos padres canonizados”. [x]
Conclui um seu biógrafo recente: “É no silêncio das horas de adoração que se encontra a explicação de toda a história de Ars”. [xi]
Após a vida de oração do Santo Cura d’Ars, intensa e constante, passamos ao segundo quadro do nosso ícone: a  igrejinha de Ars, que representa o seu zelo e amor pelos objetos litúrgicos e por tudo o que dizia respeito a Deus e à sacralidade do templo e do culto. Ao chegar em Ars, João Maria Vianney encontrou uma capela em ruínas e um povo desagregado e afastado de Deus. “Existe pouco amor de Deus naquela paróquia; você vai levá-lo”, disse-lhe o Vigário Geral da Diocese ao lhe entregar o documento de nomeação. [xii] O imenso trabalho para construir a comunidade cristã no coração dos habitantes de Ars aliava-se ao seu zelo pelo templo material. E enquanto santificava a pequena comunidade do vilarejo, ele transformava e embelezava a pequena igreja em ruínas. O amor do Cura d’Ars por seus paroquianos passava também pelo amor do padre por seu templo material e pela beleza do culto: da construção do campanário e das capelas laterais às suas prodigalidades pelos novos paramentos litúrgicos, não esquecendo os vasos sagrados, que ele queria belos e ricos porque destinados ao Senhor. [xiii] Nas atas do processo de beatificação, houve quem lembrasse que o Cura d’Ars desejou um cálice de ouro maciço, porque “o mais belo daqueles que ele possuía não lhe parecia ainda digno de conter o sangue de Jesus Cristo”. [xiv] O contraste é impressionante, entre a casa paroquial pobre e despojada, a sua vida austera e penitente, por um lado, e, por outro, a riqueza com que ele quis dotar a sua igreja: nada para mim, tudo para o Senhor! E a quem pretendia substituir sua batina velha e surrada, respondeu com convicção: “Minha velha batina combina muito bem com uma bela casula”. [xv] O povo logo compreendeu, como no passado tinham compreendido os construtores das grandes catedrais medievais. Como compreendem ainda hoje todos aqueles que reconhecem a Deus o lugar central em nossa sociedade e em suas próprias existências. Com que emoção, em algumas visitas que realizei a Ars no exercício do meu ministério sacerdotal, pude utilizar alguns destes cálices e ostensórios que pertenceram ao Santo Cura d’Ars e que lá são conservados; é uma recordação que ainda hoje me anima e dá forças.
Gostaria de acrescentar ao nosso ícone um terceiro quadro, representado pela biblioteca de São João Maria Vianney, conservada ainda hoje no seu quarto na casa paroquial, agora transformada em museu-relicário. Ela impressionou-me já em minha primeira visita a Ars, no longínquo 1975, quando eu tinha apenas 4 anos de ordenação sacerdotal. João Maria Vianney herdou-a do Padre Balley, seu primeiro pároco e formador. Mais recentemente, tive a ocasião de examiná-la de perto, folheando os livros que a compõem: como está longe da realidade a imagem estereotipada de um João Maria Vianney ignorante e de cabeça dura. [xvi] Nunca foi um aluno brilhante, é certo, nem teve um cérebro genial. Mas, quanta aplicação no estudo, sobretudo quando, no contato com o povo, ele se sentiu responsável por indicar-lhe o caminho do céu: “O resultado de seus estudos era nulo porque ele não compreendia suficientemente o latim… Apesar disso, ele parecia aplicar-se continuamente ao estudo”, declarava Vincent Besacier, seu colega de seminário. [xvii] Os tratados de espiritualidade, os livros dogmáticos, a teologia moral que ele folheou constantemente, preparando-se com escrupulosidade para o ministério da pregação, ainda se encontram naquelas estantes, testemunho silencioso de sua aplicação, apesar do assédio dos fiéis e das jornadas completamente preenchidas pelo seu serviço pastoral. Padre João Maria Vianney não descuidava da preparação intelectual. Pelo contrário, no processo de beatificação somos informados de que ele relia a obra moral de Gousset a cada inverno, quando lhe restava um pouco mais de tempo por causa da diminuição dos peregrinos. [xviii] É sabido que o seu rigorismo moral inicial foi completamente transformado pelo contato com a primeira divulgação em língua francesa do pensamento moral de Santo Afonso Maria de Ligório, o Padroeiro dos moralistas e dos confessores. [xix] Este mesmo santo doutor que, quando era vivo, pregava aos padres sobre a necessidade de um estudo contínuo e diligente, ao lado de uma intensa vida de oração, para que pudessem se tornar guias seguros do povo de Deus. A inteligência espiritual, sem sombra de orgulho humano, saciada pela presença de Deus, eis um desafio aos padres de ontem, de hoje e de sempre. Dizia o Santo Cura d’Ars: “A cruz é o livro mais sábio que se possa ler. Quem não a conhece é um ignorante, mesmo que conheça todos os outros livros. Verdadeiramente sábios são somente aqueles que a amam”. [xx] Oxalá possa ser dito de cada um de nós, queridos Padres, aquilo que a Sra. Lassagne escreveu sobre o seu Pároco: “O senhor Pároco considerava-se tão pouca coisa que o Espírito Santo tinha gosto em preencher aquele vazio com a sua sabedoria admirável”. [xxi]
A metade de nosso ícone está pronta e diz respeito à realidade interior, ao coração de nosso Santo. A outra metade refere-se ao relacionamento de São João Maria Vianney com os fiéis. Assim sendo, o quarto quadro do ícone é representado pelo confessionário do Santo. Ou melhor, pelos confessionários de Ars, pois ele tinha o costume de confessar os homens na sacristia, enquanto as mulheres e crianças eram atendidas em outro confessionário, situado numa capela lateral da igreja. Hoje em dia, é comum os peregrinos pararem por alguns instantes diante de confessionário da sacristia, tão simples e pobre e, no entanto, tão eloquente em seu silêncio. Quantas vidas passaram por aquelas pranchas de madeira pobre e despojada! Quantos dramas humanos, quantos sofrimentos, quanto desespero, dor, angústia! Mas também quantas palavras de conforto, quantas conversões, quantas vidas transformadas! Diretor espiritual incomparável, seu conselho inspirado encontra-se na origem de numerosas congregações religiosas fundadas por penitentes seus, ao longo do século XIX.  Operário silencioso, o pobre padre empregava seu tempo mais precioso e todas as suas energias ao serviço da reconstrução do ser humano, resgatando-o do pecado e tornando-o filho pródigo de um Deus de amor. [xxii] Seus confessionários espalharam a luminosidade do Evangelho da salvação bem além dos limites do vilarejo e sua luz acabou por resplandecer no mundo inteiro. Como escreve um dos seus biógrafos: “Quantas outras almas e quantas paróquias devem a Vianney sua melhoria. Conhecemos pouco da sua influência de confessor e de diretor espiritual. O resto, ignorado pelos homens, será revelado diretamente por Deus. Padre Vianney – conta a condessa de Garret – viu-se obrigado um dia a reconhecer que só no juízo final será conhecido todo o bem realizado por seu ministério”. [xxiii]
O quinto quadro de nosso ícone é constituído pelo púlpito do Santo Cura d’Ars. Aliás, são dois, bem plantados na pequena igreja do vilarejo: o púlpito da pregação e outro, menor, de onde ele ensinava o catecismo diariamente. O catecismo, a formação permanente da fé cristã, é um dos deveres primordiais de um Pároco: durante quase quinze anos, de 1845 a 1859 – ano de sua morte, São João Maria Vianney nunca faltou a este dever, através daquilo que ficou conhecido como o “catecismo das onze horas”. [xxiv] Seu estilo muito pessoal e o conteúdo de seus sermões e de sua catequese são, hoje em dia, bem estudados. [xxv] Reconhece-se o seu estilo simples, direto, que falava ao coração, anunciando o amor de Deus e convidando à santidade de vida, sem concessões à mentalidade corrente mas tão somente apoiado na Verdade do Evangelho. Mas, sobretudo, era a sua sinceridade e a sua fé pessoal que convenciam, inflamavam e atraíam. Ele mesmo costumava repetir: “Qualquer que seja o padre, é sempre o instrumento de que se serve o bom Deus para distribuir a sua santa palavra… Os padres não dizem o que querem; eles dizem o que está no Evangelho”. [xxvi]
Com efeito, a Palavra de Deus ocupa um lugar central na vida e no ministério de São João Maria Vianney. E tal era o seu testemunho pessoal que mesmo no final de sua vida, envelhecido e cansado, quando tinha apenas um fio de voz e os ouvintes não conseguiam compreender bem o que ele dizia, seu ensinamento continuava a ser eficaz, porque ele mesmo tinha se tornado uma pregação viva. O olhar inflamado, dirigindo-se ao sacrário de sua pequena igreja, as lágrimas correndo abundantes, o dedo indicador apontando trêmulo o tabernáculo, ele conseguia apenas balbuciar: “Ele está lá”. E a comunidade inteira percebia a realidade da presença real de Cristo na Eucaristia. [xxvii] A sua era uma palavra de eternidade. [xxviii] Afirma um dos biógrafos do Santo: “O Cura d’Ars permanece na memória da Igreja como o homem da Palavra urgente, prioritária, apelo à conversão porque dom do Amor”. [xxix]
O último quadro de nosso ícone – não porque não haja muitos outros que poderiam ser aqui traçados, mas porque devo restringir-me a alguns mais diretamente ligados ao nosso tema – poderia ser constituído pela imagem do Cura d’Ars visitando as órfãs da Providência e os doentes da paróquia, visitas que ele fazia habitual e regularmente após ter passado toda a manhã na igreja e antes de retornar a ela pela tarde. Para mim, estas visitas são a imagem do zelo que se faz presença, do pastor que não espera as ovelhas mas vai à procura das mais fracas, das mais abandonadas e daquelas que mais se afastaram do rebanho. Ainda hoje, a cidade de Ars conserva pequenas placas nas fachadas de muitas casas, indicando que ele esteve naquela residência, levando consigo a imagem visível do bom Pastor que a todos abraça e reúne. A presença do Santo Cura d’Ars junto aos moribundos foi descrita por um sacerdote, testemunha ocular, no processo para a beatificação de nosso Santo: “Nunca ouvi falar da outra vida com tanta fé e convicção. Dir-se-ia que ele contemplava com seus próprios olhos aquilo que ele dizia, enquanto consolava os pobres moribundos e reanimava a sua confiança. Todos queriam  poder morrer entre as suas mãos”. [xxx]
Contemplando na fé este maravilhoso ícone do Cura d’Ars, agora completo, podemos compreender como a santidade pessoal do ministro sacramental de Cristo Pastor espalha-se e se difunde nos atos de seu ministério para o bem do povo de Deus e de toda a humanidade. Mas podemos dizer também que os atos do ministério, realizados em sintonia com a realidade do nosso estado de configurados com o Cristo Pastor, são a via real da nossa santificação como padres. Tal é o ensinamento do Concílio Ecumênico Vaticano II, que analisaremos a seguir. João Maria Vianney, em sua vida sacerdotal, antecipou e viveu plenamente tal ensinamento.
PARTE II
A CARIDADE PASTORAL,
GARANTIA DA UNIDADE DO MINISTÉRIO
E FONTE DA ESPIRITUALIDADE SACERDOTAL
Passemos ao segundo ponto de nossa reflexão, ou seja, o ensinamento do Concílio Ecumênico Vaticano II. Sabemos que a discussão conciliar em torno do esquema do futuro documento Presbyterorum ordinis procurava, entre outras finalidades, também a de identificar um princípio unificador da vida do padre, dividido entre as múltiplas necessidades do seu ministério ativo e, por outro lado, a necessidade de se santificar a si mesmo. A vocação universal à santidade, proclamada tão solenemente pelo Vaticano II, [xxxi] reveste uma dimensão especial no caso do padre, configurado ontologicamente a Cristo Cabeça e Pastor da Igreja, sendo constituído portanto como ministro da santificação do povo de Deus, chamado a ser sinal sacramental do Cristo em meio aos homens e mulheres e a agir em nome e na pessoa de Cristo.
O número 12 do documento conciliar Presbyterorum ordinis apresenta um primeiro elemento básico, ao afirmar: “Pelos ritos sagrados de cada dia e por todo o seu ministério exercido em união com o Bispo e os outros presbíteros, eles mesmos se dispõem à perfeição da própria vida”. E no número seguinte, o documento é ainda mais preciso: “Os presbíteros atingem a santidade pelo próprio exercício do seu ministério, realizado sincera e infatigavelmente no espírito de Cristo”. [xxxii] Não se trata aqui da “heresia da ação”, sempre ameaçadora da vida sacerdotal e que pretende tudo resumir à eficácia do agir humano. Trata-se, pelo contrário, de criar uma sintonia real com Cristo, de quem os padres são sinal sacramental: somos chamados a exercer o ministério recebido em vista da finalidade que lhe é própria, ou seja, para a glória de Deus e a salvação dos seres humanos, esquecendo nossos próprios interesses para fazer nossos os interesses de Jesus Cristo. É preciso – maravilhosa obra da graça com a colaboração humana – construir a conformidade interior que deve existir entre o padre, causa instrumental, e Jesus, que permanece o único agente principal da Redenção.
Somente assim o tríplice ministério de pregar o Evangelho, de apascentar a comunidade eclesial e de celebrar o culto [xxxiii] constituirá não somente um “trabalho” ou um “serviço” a ser realizado, uma “função” a ser executada, mas também um caminho de fé que cumpre toda a Igreja, clero e fiéis, cada um em seu grau e no específico da própria vocação.
O anúncio da Palavra torna-se, para o padre, ocasião de um encontro pessoal com a Palavra viva, que questiona e provoca a sua resposta pessoal de fé, para que sua pregação seja autêntica e sincera. Recordava-o o Papa Paulo VI, dirigindo-se aos padres: “Como poderíamos nós anunciar com fruto a Palavra de Deus se ela não nos for familiar pela meditação e pela oração quotidiana­­? E como poderia ela ser acolhida, se não for sustentada por uma vida de fé profunda, de caridade ativa, de total obediência, de oração fervorosa e de penitência humilde? A coisa mais necessária não é a abundância de palavras, mas que a palavra esteja em harmonia com uma vida mais evangélica”. [xxxiv]
A santificação do povo de Deus, à qual se consagra o ministério presbiteral [xxxv] não pode deixar indiferente a pessoa do padre, chamado a personificar o Cristo na celebração dos sacramentos. Ele é chamado a imitar aquilo que ele toca, “hóstia com a hóstia imolada”, sacerdos et victima. Percebe-se esta realidade, de maneira eloquente, na celebração do Mistério Eucarístico, centro e cume de toda a vida eclesial. Dessa maneira, o Concílio Vaticano II pode afirmar: “Enquanto os presbíteros se unem com a ação de Cristo Sacerdote, oferecem-se todos os dias totalmente a Deus, e, alimentando-se do Corpo do Senhor, participam amorosamente da caridade daquele que se dá como alimento aos fiéis”. [xxxvi] O Pontifical Romano recorda essa verdade, na exortação dirigida aos ordenandos: “Exercei também em Cristo a função de santificar… Tomai consciência do que fazeis e ponde em prática o que celebrais, de modo que, ao celebrar o mistério da morte e ressurreição do Senhor, vos esforceis por mortificar o vosso corpo, fugindo aos vícios, para viver uma vida nova”. [xxxvii]
A direção da comunidade corresponderá à atitude pessoal daquele que se deixou conduzir pelo desígnio de Deus e se oferece totalmente, por toda a vida, a este mesmo projeto. Se o padre não se apresentar diante dos fiéis como um homem de fé profunda, de esperança inquebrantável e de caridade ardente, ele corre o risco de cair pouco a pouco na profissionalização do seu ministério. Este não é um risco sempre à espreita, em nossos dias?
Os Padres do Concílio Vaticano II indicam o princípio unificador da vida e da ação sacerdotal na expressão “caridade pastoral”: “Fazendo as vezes do Bom Pastor, encontrarão no exercício da caridade pastoral o vínculo da prefeiçaõ sacerdotal que conduz à unidade de vida e ação. Esta caridade pastoral flui sobretudo do sacrifício eucarístico, que permanece o centro e a raiz de toda a vida do presbítero, de tal maneira que aquilo que ele realiza sobre a ara do sacrifício, isso mesmo procura realizar em si o espírito sacerdotal. Isto, porém, só se pode obter à medida em que os presbíteros penetram cada vez mais profundamente no mistério de Cristo pela oração”. [xxxviii]
O termo supõe, antes de tudo, a centralidade de Cristo Bom Pastor na vida do ministro ordenado, o Cristo como centro e raiz da vida sacerdotal. Os padres são convidados a procurar a unidade de sua vida olhando para o Cristo, o qual, no exercício de seu ministério, procurava cumprir sempre a vontade do Pai que o enviara. Hoje, são os presbíteros os instrumentos de Cristo que, por meio deles, continua a sua ação redentora. É portanto lógico que a espiritualidade presbiteral seja centrada no fato de que o próprio Cristo vive em seus padres e quer, por seu intermédio, continuar exercendo no mundo a sua atividade sacerdotal. Para alcançar a unidade de vida, os padres devem portanto “unir-se a Cristo no conhecimento da vontade do Pai e no dom de si mesmos pelo rebanho que lhes foi confiado”. [xxxix] Trata-se, pois, de dois elementos que se exigem mutuamente, evitando tanto um espiritualismo desencarnado como um ativismo desenfreado feito de múltiplas atividades que terminam por cansar o físico e por esvaziar o espírito do padre. A unidade de vida deve ser buscada em Cristo, como o modelo perfeito do cumprimento da vontade do Pai e da doação incondicional aos homens.
A caridade pastoral supõe por conseguinte uma união vital e profunda com Cristo, fonte e garantia da doação autêntica aos outros. Ela não pode identificar-se simplesmente com uma atividade ou com o apostolado externo, mas antes com a alma deste apostolado que é a união vital com Cristo. O Venerável João Paulo II afirma-o com ênfase, quando ensina: “A caridade pastoral é uma participação da própria caridade pastoral de Jesus Cristo”. [xl]
A unidade interior da pessoa do padre adulto é uma unidade de amor [xli], dada pela centralidade do amor esponsal e da sua identificação com Cristo sacerdote e vítima de redenção. Esta unidade interior é um processo que deve durar a vida inteira, desenvolvendo-se através das sucessivas etapas da existência cronológica e psicológica do ser humano do padre, da juventude à idade madura e à velhice. Trata-se de uma unidade dinâmica, em contínua renovação, através das batalhas e dos desafios, das misérias, das insuficiências e dos limites, mas que consegue tudo ultrapassar e vencer, concentrando e unificando tudo na experiência do agapé, única modalidade suprema do amor. [xlii]
Um ulterior elemento constitutivo da “caridade pastoral”, princípio unificante da vida e da identidade sacerdotal, é apontado pelo Concílio Vaticano II na fidelidade à Igreja. Este é um ponto importante em nossa vida sacerdotal e gostaria de realçá-lo com força. O número 14 do documento conciliar Presbyterorum ordinis afirma: “Para que possam verificar concretamente a unidade de vida, (os padres) considerem todas as suas iniciativas, examinando qual será a vontade de Deus, ou seja, qual será a conformidade dessas iniciativas com as normas da missão evangélica da Igreja. A fidelidade para com Cristo não se pode separar da fidelidade para com a Igreja. Por isso, a caridade pastoral exige que os presbíteros, para que não corram em vão, trabalhem sempre em união com os bispos e com os outros irmãos no sacerdócio. Procedendo dessa forma, encontrarão os presbíteros a unidade da própria existência na mesma unidade da missão da Igreja, e assim unir-se-ão com o Senhor, e por meio dele com o Pai, no Espírito Santo, a fim de que possam encher-se de consolação e de alegria”.
Nosso ministério não é uma realidade que é vivida apenas em um âmbito pessoal e particular. Ele deve ser expressão do ministério confiado por Cristo à sua Igreja, da qual nós não somos donos mas apenas os ministros. A experiência constante demonstra como as crises sacerdotais aparecem quando se pretende percorrer sozinhos uma estrada que teimamos em estabelecer por nós mesmos, ainda quando ela acaba nos afastando do caminho eclesial.
Meus irmãos padres, devemos evitar o aparente zelo subjetivo e independente, que nos afasta progressivamente daquela comunhão hierárquica que é não somente um sinal de autenticidade de nosso ministério, mas também o “humus” necessário para que nossa vocação possa resistir aos momentos mais duros e difíceis que, de tempos em tempos, podem aparecer na vida e no ministério de cada um de nós. Nosso Santo Padre, o Papa Bento XVI, recordou-nos esta verdade por ocasião de ordenações presbiterais por ele presididas. Dirigindo-se aos novos padres, afirmava: “Conhecer as ovelhas como Jesus, Bom Pastor, quer dizer também conhecer com o coração. Mas isso só será possível em profundidade se o Senhor abrir nosso coração; se nossa maneira de conhecer não prender as pessoas ao nosso pequeno ego privado, a nosso coração limitado, mas as conduzir ao coração de Jesus, ao coração do Senhor. Deve ser um conhecimento com o coração de Jesus e a Ele orientado, uma maneira de conhecer que não ligue o ser humano à minha pessoa, mas o leve a Jesus tornando-o livre e aberto. E assim também nós, no meio dos seres humanos, nos tornamos próximos. Peçamos sempre ao Senhor que nos seja dada esta maneira de conhecer com o coração do Cristo, de nunca ligar a nós mesmos mas de unir os fiéis ao coração de Jesus e, assim, criar uma verdadeira comunidade”. [xliii]
PARTE III
DESAFIOS À SANTIDADE DO PADRE
O padre é um homem batizado que recebeu, por força da ordenação sacerdotal, uma configuração especial que o coloca ao serviço da santificação da comunidade dos batizados, da qual ele também faz parte. Com sua perspicácia bem reconhecida, Santo Agostinho definiu esta situação da seguinte forma: “Para vós eu sou bispo, convosco eu sou cristão”. Em seguida, ele diz que esta função “obriga a uma perigosa prestação de contas”, porque – ele afirma – “enquanto cristão, devo dedicar-me ao meu próprio proveito, mas, como bispo, devo dedicar-me unicamente ao vosso”. [xliv] O que ele diz do bispo aplica-se, sem sombra de dúvida, também aos padres de todos os tempos.
Com a ordenação presbiteral, o padre recebe um caráter espiritual indelével, que o acompanhará por toda a eternidade e o habilita a agir na pessoa de Cristo, Cabeça da Igreja, no cumprimento da tríplice função de ensinar, santificar e guiar a comunidade eclesial. Esta graça, no entanto, não elimina a fraqueza humana nem a possibilidade de cair no erro e, menos ainda, ela não impede que nós possamos pecar. Infelizmente, é-nos necessário reconhecer que, às vezes, faltam a algumas ações e atitudes dos ministros de Cristo o sinal da fidelidade ao Evangelho. Ultimamente, a Igreja tem sido sacudida, em vários países do mundo e também em nosso Brasil, pela exposição mediática de situações de pecado e de miséria que revelam cruelmente todo o peso da fragilidade humana de tantos sacerdotes e o dano terrível causado por seus comportamentos pecaminosos.  Tais ações – verdadeiros escândalos para o Povo de Deus e para o mundo em geral – obscurecem o belíssimo ideal sacerdotal, enxovalham a figura estupenda do sacerdote católico – de que o Santo Cura d’Ars é autêntico ícone – e tornam-se gravemente prejudiciais à fecundidade do apostolado da própria Igreja.  Estes fatos provocam em todos nós um sentimento de profunda vergonha.
Neste Ano Sacerdotal, somos chamados a pedir perdão – a Deus e aos homens – pelos pecados e escândalos que, por meio de ministros ordenados, possam ter causado sofrimento e dor a muitos e afastaram da Igreja a tantos. Mas não basta o pedido de perdão.
É verdade que a eficácia dos atos sacramentais é sempre garantida pelo fato de que ela não depende da santidade do padre, mas realiza-se “ex opere operato”, ou seja, é obra mesma de Cristo, de quem o padre é representante. Mas, por outro lado, é necessário que nós sacerdotes nos empenhemos efetivamente na nossa própria santificação pessoal. Com efeito, Deus manifesta oradinariamente a sua ação salvífica por meio do ministério de padres que, dóceis à inspiração e à direção do Espírito Santo, demonstram uma real santidade de vida, graças a qual podem dizer como São Paulo: “Não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim”. [xlv] A santificação pessoal do padre torna-se, então, uma exigência lógica e intrínseca do seu caráter sacramental e do seu ministério, como ela é também uma consequência necessária do seu batismo.
Retomando em nossa reflexão o ícone do Santo Cura d’Ars anteriormente delineado, gostaria de deixar à consideração de cada um de nossos queridos padres, alguns elementos concretos que podem ser aprofundados na vida quotidiana e no nosso ministério, a guisa de propósitos que deem continuidade à celebração do Ano Sacerdotal: Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote!
Contra o esgotamento do ministério e a fadiga que parecem pesar sobre tantos confrades nossos, em diversas partes do mundo, somos desafiados, queridos Padres, pelo primeiro quadro de nosso ícone: o sacrário e o breviário do Santo Cura d’Ars. Uma intensa vida de oração – pessoal e comunitária – meditativa, contemplativa e litúrgica, poderá redespertar em nós aquele espírito que reaviva o caráter que está em nós desde que recebemos a imposição das mãos apostólicas.
Contra a banalização de nossa vida sacerdotal e o empobrecimento de nossa missão, concebida redutivamente como o exercício de uma mera função social talvez até considerada ultrapassada pela modernidade, somos desafiados pelo segundo quadro de nosso ícone: a pequena igreja de Ars, os belos paramentos e os ricos vasos sagrados através dos quais São João Maria Vianney quis tudo dar e doar-se a si mesmo ao Senhor, consagrando-se inteiramente à salvação da humanidade e reconhecendo Cristo como centro de sua existência e única fonte de seu ministério. Nosso sacerdócio será tanto mais moderno e atualizado, quanto mais for reconhecido por todos como autêntico e sincero; e isso só será possível na medida em que no centro de nosso ser e de nosso agir se encontrar o Cristo, Sacerdote e Bom Pastor. E na medida em que nossa atividade e nossas ações se concentrarem na dimensão teológica, cristológica e eclesiológica que são a base da autêntica doutrina católica sobre o Sacramento da Ordem.
Contra a mediocridade do pensamento e o rebaixamento dos ideais sacerdotais, somos desafiados pelo terceiro quadro de nosso ícone: a biblioteca do Santo Cura d’Ars. Homens de oração, os padres são chamados hoje a serem também homens de cultura, da busca incessante de uma teologia profunda, do saber que se adquire por um estudo metódico e perseverante, que se torna humilde contemplação do mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo pelo Espírito e vivido na dinâmica sobrenatural da Igreja. Fides quaerens intellectum, o antigo axioma recorda-nos que a fé autêntica necessita ser meditada e esclarecida a partir da razão humana iluminada pela Revelação. E porque nunca suficientemente esgotada – esta reflexão é uma busca apaixonada que só será saciada na contemplação beatífica – nós somos chamados a construir um estilo de vida no qual o estudo tenha também a sua parte importante, não nos contentando com slogans fáceis e vazios, que, infelizmente, parecem ser hoje característicos de uma superficialidade de doutrina, que acaba por empobrecer a vida eclesial, debilitando-a. Este estudo, como em São João Maria Vianney, será sempre realizado de joelhos, unindo a razão e o espírito e nos levando à contemplação mais verdadeira.
Contra a tentação do ativismo que, tantas vezes, acaba por esconder o vazio do coração e do espírito, contemplemos em nosso ícone o confessionário e o púlpito de São João Maria Vianney. A palavra vivida é anunciada, talvez sem a eloquência humana mas com a força do testemunho e da autenticidade de vida. E esta palavra em seguida gera a experiência do amor misericordioso de Deus, do Pai que acolhe seu filho pródigo. O que pode caracterizar melhor o padre, depois do altar do Sacrifício, do que o confessionário e o púlpito? O que pode contribuir mais para a santificação do padre, além do altar, do que o confessionário e o púlpito? Sejamos sempre, queridos irmãos Padres, ministros generosos e dedicados da misericórdia de Deus, na pregação incansável e no sacramento da Confissão, sempre em sua forma ordinária, a da confissão auricular com absolvição individual, como determinado pelas normas da Igreja e pelas disposições particulares de nossa Diocese.
Contra a tentação da solidão, tão pesada nesta época de comunicações que com frequência permanecem apenas virtuais, contemplemos o último quadro de nosso ícone: o amor ardente do Santo Cura d’Ars que se manifesta na atenção pelos pequeninos do Senhor. Nosso celibato sacerdotal tornar-se-á então uma fonte inesgotável de amor-doação, de amor-serviço, de castidade consagrada que se torna exercício generoso de paternidade espiritual. Nosso agir sacerdotal será “para” e “com” Cristo, contemplado e amado nos irmãos, aos quais consagramos toda a nossa existência, sem nada reter para nós mesmos. Só assim o padre será, verdadeiramente, um alter Christus, manifestando em todo o seu agir – também na forma exterior de se apresentar diante da sociedade – Aquele a quem somos identificados ontologicamente.
Seguindo as pegadas de São João Maria Vianney, nosso Patrono celeste, somos chamados a ser, como ele,
- Homens de oração, testemunhas do absoluto ao serviço do mundo;
- Homens de Igreja, assinalados por uma sólida fé teológica e ancorados na obediência, expressão de nosso amor à Igreja, e no dom maior do amor vivido no celibato;
- Homens eucarísticos, que fazem da celebração diária da Santa Missa o ponto mais alto da jornada e do Sacramento Eucaristíco a fonte perene da força e eficácia do nosso ministério;
- Homens do perdão, construtores de unidade em nossas comunidades e administradores incansáveis da misericórdia divina;
- Homens de discernimento, autênticos pastores, conselheiros e amigos de nosso povo, na disponibilidade total de nossos seres e de nossas vidas;
- Homens da ação apostólica, inteiramente dedicados à evangelização, discípulos e missionários que edificam as comunidades e as conduzem à missão;
- Homens de coragem, capazes de opções viris e decididas, de empenhar para sempre nossa palavra e nossa vida, mesmo enfrentando dificuldades e momentos difíceis, porque conscientes de caminhar ancorados em uma configuração ontológica que faz de nós imagens autênticas de Cristo Pastor. [xlvi]

Na quinta-feira santa de 2006, nosso Santo Padre Bento XVI surpreendeu-nos com uma singular confidência: “Minha oração preferida é o pedido que a liturgia põe em nossos lábios antes da comunhão: não permitais que eu me separe de vós. Pedimos para nunca permanecer fora da comunhão com seu Corpo, com o próprio Cristo, nunca permanecer fora do mistério eucarístico. Pedimos que ele nunca largue nossa mão… O Senhor pôs sua mão sobre nós. O sentido deste gesto ele expressou com estas palavras: ‘Já não vos chamo servos,  porque o servo não sabe o que seu senhor faz; mas eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer’ (Jo 15,15). Já não vos chamo servos, mas amigos: nestas palavras poderíamos até ver a instituição do sacerdócio. O Senhor nos faz seus amigos: ele nos confia tudo; ele nos confia a si mesmo, de maneira que podemos falar com o seu Eu – in persona Christi capitis. Que confiança! Ele verdadeiramente entregou-se em nossas mãos”. [xlvii]
Possamos também nós, Sacerdotes de Cristo, em resposta ao Cristo que se entrega a nós, entregar-nos também em suas mãos e sermos seus, para sempre! Que nos acompanhe até o fim de nossa existência terrena a ardente oração de amor do Santo Cura d’Ars:
“Amo-Te, meu Deus, e meu único desejo
é o de Te amar até o último respiro da minha vida.
Amo-Te, ó Deus infinitamente amável,
e prefiro morrer amando-Te,
do que viver um só instante sem amar-Te.
Amo-Te, Senhor, e a única graça que te peço
é a de amar-Te eternamente.
Amo-Te, meu Deus, e desejo o céu
somente para ter a felicidade de amar-Te perfeitamente. (…)
Meu Deus, se a minha língua não pode dizer a cada instante: amo-Te,
que o meu coração o repita a cada respiro.
Dá-me a graça de sofrer amando-Te e de Te amar sofrendo (…).
Meu Deus, dá-me a graça de expirar, um dia, amando-Te
e sentindo que Te amo.
Meu Deus, à medida em que se aproxima meu fim,
dá-me a graça de aumentar meu amor e de aperfeiçoá-lo.
Amém.” [xlviii]
Ao concluir esta Carta Pastoral, confio o Clero e os Seminaristas da Diocese de Garanhuns à proteção materna de Maria Santíssima, tão ternamente amada pelo Cura d’Ars. Ainda hoje, no peito da bela estátua da Imaculada que ele adquiriu para sua igreja, podemos ver um coração de ouro que contém o seu nome e o de todos os seus paroquianos. Ele o ofereceu à Virgem em 1836, celebrando um solene ato de consagração de sua Paróquia à Virgem concebida sem pecado. [xlix] Espiritualmente, desejo inscrever no coração da Virgem, Mãe de Deus e nossa, os nossos nomes, queridos Padres e Seminaristas, para que ela nos conduza no caminho de nossa santificação, para sermos sempre padres segundo o Coração de seu Filho.
Com os melhores votos de felicidades, de santidade e de perseverança, neste nosso dia e nesta nossa festa, abençoo-os afetuosamente em nome do Pai X e do Filho X e do Espírito X Santo. Amém.
Garanhuns, 1º de Abril de 2010.
X Fernando Guimarães
Bispo Diocesano de Garanhuns

[i] BENTO PP. XVI, Carta Apostólica no lançamento do Ano Sacerdotal, 16 de Junho de 2009. [ii] A data da chegada é 13 de fevereiro, e não o dia 9 como está indicado no pedestal do monumento: cf. R. FOURREY, Jean-Marie Vianney, Curé d’Ars – Vie authentique, Desclée de Brower, Paris 1981, p. 80.
[iii] Cf. F. TROCHU, Il Curato d’Ars, Marietti, Genova 19972, p. 151.
[iv] R. FOURREY, Vie authentique, p. 90. Em suas memórias, comenta Catherine Lassagne, a governante do Cura d’Ars: “Como era belo e edificante ver aquela figura emagrecida pela penitência, à luz da sua vela, rezar com tanto recolhimento, lançando de vez em quando um olhar ao sacrário, com um sorriso tão doce que dava a impressão de estar vendo Nosso Senhor!” (C. LASSAGNE, Le Curé d’Ars au quotidien, p. 77).
[v] Declarações do Pe. Dufour, Procès apostolique in genere, citado por F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 413. A testemunha concluía sua declaração afirmando: “A vida do Padre Vianney era uma oração contínua”.
[vi] Petit Memoire, 2ª redação, citado por F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 393.
[vii] Procès de l’Ordinaire, p. 814, citado por F. TROCHU, Il Curato d’Ars, pp. 395-396.
[viii] Declarações do Padre Beau, que foi confessor do Santo: Procès de l’Ordinaire, citado por F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 532.
[ix] B. NODET, Le Curé d’Ars – pensées, p. 91.
[x] Ibid., p. 100.
[xi] J.-J. ANTIER, Le Curé d’Ars, Perrin, Paris 2006, p. 264.
[xii] C. LASSAGNE, Petit memoire (2a. redação), transcrita na obra Le Curé d’Ars au quotidien – par un témoin privilegié, Parole et Silence, Paris 2003, p. 54.
[xiii] Cf. F. TROCHU, Il Curato d’Ars, pp. 210-222; FOURREY, Vie authentique, p. 114-122.
[xiv] Declaração do Irmão Athanase, Procès apostolique em general, p. 317; citado por F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 396.
[xv] Cf. FOURREY, Vie authentique, p. 119.
[xvi] Cf. a este respeito, a opinião de B. NODET, Le Curé d’Ars – Pensées, Foi vivante, Paris 2000, pp. 13-15; TROCHU, Il Curato d’Ars, pp. 331-347.
[xvii] J-M. ANTIER, Le Curé d’Ars, Perrin 2006, p. 59.
[xviii] Cf. F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 336.
[xix] Os volumes da primeira tradução em francês da Teologia Moral de Santo Afonso encontram-se entre os volumes da biblioteca do Santo Cura d’Ars.
[xx] Cf. J-M. ANTIER, Le Curé d’Ars, p. 158.
[xxi] C. LASSAGNE, Petit mémoire (3ª. redação), in : Le Curé d’Ars au quotidien, p. 117.
[xxii] Cf. F. TROCHU, Il Curato d’Ars, pp. 377-395; 574-577.
[xxiii] F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 391. A declaração da condessa consta no Procès de l’Ordinaire, p. 791. A mesma expressão é transmitida por C. LASSAGNE, que a ouviu várias vezes do Cura d’Ars: Le Curé d’Ars au quotidien, p. 58.
[xxiv] Cf. F. TROCHU, Il Curato d’Ars, pp. 401-405.
[xxv] Sermons of the Curé d’Ars, ao cuidado de L. SHEPPARD, Tan Books and Publishers, Illinois 1995; J.-J. ANTIER, Le Cure d’Ars, pp. 264-266.
[xxvi] A. MONNIN, Esprit du Curé d’Ars, Téqui, Paris 1975, p. 77.
[xxvii] F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p 664.
[xxviii] Tal é a expressão de F. TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 402.
[xxix] A. DUPLEIX, Comme insiste l’amour – présence du Curé d’Ars, Nouvelle Cité, Paris 1999,  p. 156.
[xxx] Padre Tailhades, Procès de l’Ordinaire, p. 1507, citado por TROCHU, Il Curato d’Ars, p. 407.
[xxxi] Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. Dogm. Lumen gentium, cap. 3, nn. 39-42.
[xxxii] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 13.
[xxxiii] Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 28
[xxxiv] PAULO PP. VI, Exort. Apost. Quinque iam anni, AAS 62 (1971), p. 104.
[xxxv] Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 5.
[xxxvi] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 13.
[xxxvii] PONTIFICAL ROMANO, Rito da ordenação de Presbíteros, n. 123.
[xxxviii] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, decr. Presbyterorum ordinis, n. 14.
[xxxix] CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 14.
[xl] JOÃO PAULO PP. II, Exort. Apost. Pastores dabo vobis, n. 23.
[xli] Ibid., n. 72.
[xlii] Cf. BENTO PP. XVI, Carta encícl. Deus caritas est, n. 6.
[xliii] BENTO PP. XVI, Homilia durante a ordenação presbiteral, 7.5.2006, Domingo do Bom Pastor, em: BENEDETTO XVI, Cari Sacerdoti, ao cuidado de T. STENICO, Editrice Shalom, Camerata Picena 2006, p. 57.
[xliv] S. AGOSTINHO, Sermão 46, sobre os Pastores, CCL 41, 530.
[xlv] Gal. 2,20.
[xlvi] Os títulos inspiram-se nos diversos capítulos da obra de A. DUPLEIX, Comme insiste l’amour – présence du Curé d’Ars, pp.294-295.
[xlvii] BENTO PP. XVI, Homilia na Quinta-feira santa de 2006, in BENEDETTO XVI, Cari Sacerdoti, p. 77.
[xlviii] Le Cure d’Ars – Pensées, ao cuidado de B. NODET, Desclée de Brower, Paris 2000, p. 45. Oração composta pelo Santo provavelmente em 1848.
[xlix] C. LASSAGNE, Le Curé d’Ars au quotidien, p. 86-87 ; J.-M. FOURREY, Vie authentique, pp. 172-174.