Artigo - O ESPÍRITO SANTO E MARIA POR UMA MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA p1



Philipe Valdenô Damazo
Seminarista Arquidiocese de Florianópolis
Acadêmico 4º ano de Teologia
Faculdade Católica de Santa Catarina


1. INTRODUÇÃO

Este pequeno artigo, dividido em duas partes, quer servir de introdução a partir de uma análise teológica feita dentro da aula de Mariologia, ministrada na Faculdade Católica de Santa Catarina, em Florianópolis, neste ano de 2017. Dentro das comemorações do Ano Nacional Mariano, achou-se por bem publicar esse artigo, por tratar-se de uma reflexão teológica que abre uma oportunidade de estudos acadêmicos sobre a pessoa e a vida de Maria e sua participação na obra redentora de Jesus. Esta primeira parte destaca o esfriamento dado pela teologia católica sobre a Pessoa do Espírito e a retomada, após o Concílio Vaticano II, dos estudos pneumatológicos. Aliado a isso, os estudos sobre a figura da Mãe de Jesus apenas tem a ganhar, pois a atual pesquisa teológica coloca Maria como participante de modo pleno na obra da Santíssima Trindade. Num segundo artigo, pretender-se-á apontar a relação Maria-Espírito Santo em vista da missão criadora-redentora da Trindade Santa.

2. ESQUECIMENTOS E SUBSTITUIÇÕES DO ESPÍRITO SANTO

Entre os teólogos lamenta-se profundamente que na Igreja do Ocidente haja uma ausência inquietante do Espírito Santo (CONGAR, 2009, p. 208), nisso vigora – ou vigorava – na Igreja Latina o modelo Deus-Cristo-Igreja. Ou seja, a graça de Deus procederia de Deus Pai, por Cristo, na Igreja. Quando a base original da experiência da graça e da salvação procede de Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo (COYLE, 1999, p.130).
Com o esquecimento da atuação do Espírito Santo na Igreja, aos poucos as funções da Terceira Pessoa da Trindade foram sendo substituídas pelas devoções, às assim chamadas “três brancuras”: ou seja, a Eucaristia, a Virgem Maria e o Papa, chegando, por vezes a até mesmo um aspecto de idolatria, principalmente das figuras de Maria e do Papa. A este, colocando-o como o único fundamento para a unidade da Igreja, ao ponto de se falar da presença de Cristo “sob as espécies papais” (CONGAR, 2009, p.208-213).

3. O ESPÍRITO SANTO SUBSTITUIDO POR MARIA?

De fato, a pneumatologia Católica, por mais que tenha uma dogmática sobre o Espírito Santo, pouca coisa a Igreja fez para que a teologia sobre o Espírito Santo passasse da doutrina à vida e a liturgia (ibid., p. 208-209). Nesse ínterim “[...] a devoção a Maria ocupa espaços deixados vagos por uma teologia ou pneumatologia subdesenvolvida do Espírito Santo” (COYLE, 1999, p. 126).
Sabe-se, porém, que a relação do Espírito Santo com Maria e vice-versa são deveras profundas, porém é necessário, para uma sã mariologia situar Maria dentro da função do Espírito Santo: ou seja, o Espírito a fez mãe do Verbo encarnado (CONGAR, 2009, p.215), desse modo vê-se que a teologia da Igreja não pode colocar Maria como primeira fonte da vida, mas esse dado é próprio do Espírito Santo (COYLE, 1999, p. 127), pois como diz o credo Niceno-Constantinopolitano, “Ele é Senhor e dá a vida”. Porém a mariologia medieval, que perdurou até o Concílio Vaticano II, dava a Maria as glórias, funções e qualidades próprias do Espírito Santo. Desse modo, Maria, pwara os católicos é representada como medianeira, intercessora, advogada, consoladora (ibid., p. 127). Por isso Yves Congar tem que dizer que muitas vezes os protestantes estão certos em criticar os católicos, pois estes atribuem a uma criatura atributos que são do próprio Deus (CONGAR, 2009, p. 215).
Atualmente a Mariologia tem evoluído, colocando a figura e a presença de Maria, como o modelo supereminente da Igreja, dando ênfase para sua materna intercessão universal, e como cooperadora na missão da Trindade (ibid., p. 215). Ao tirar de Maria os atributos dados ao Espírito Santo, os estudos teológicos dão margem para que se possa estudar e refletir sobre a feminilidade de Deus, devolvendo ao Espírito as características de carinho, cuidado, proteção, acolhimento, consolação, etc. (BINGEMER, 2016, p. 45). Desse modo, uma saudável mariologia, acompanhada de uma pneumatologia renovada, vem abrir um leque de reflexões que trazem à tona a feminilidade de Deus, fazendo assim com que o ser humano – imagem e semelhança da Trindade – tenha, na mesma Trindade, “[...] imagens que simbolizem a divina autodoação radical em encarnação e graça” (COYLE, 1999, p. 130).
E Maria, perderia seu posto dado  séculos? Sim e não. Maria como a primeira agraciada, associa-se a ação libertadora e humanizadora do Espírito de Deus (CONGAR, 2009, p. 215). Desse modo, a Mãe de Deus é vista como ser humano – histórico e finito – porém com excepcional papel na história e na obra da salvação. Assim com Karl Rahner, deve-se o catolicismo concentrar-se em Maria “[...] não como ser celeste, mas como pessoa humana, [...] modelo e mãe dos fiéis” (RAHNER apud COYLE, 1999, p. 133), chamando ao discipulado inclusivo, libertador e profético (COYLE, 1999, p. 139). Dada esse introdução, num próximo artigo se olhará para a ação do Espírito de Deus na pessoa de Maria ao longo de sua vida e na História da Salvação.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONGAR, Yves. Revelação e experiência do Espírito2 . ed. Tradução Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulinas, 2009.

COYLE, Kathleen. Maria na Tradição Cristã: a partir de uma perspectiva contemporânea. Tradução Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus, 1999.

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti. O tempo do Espírito e a teologia cristã: o desafio da carne e da ética. In: VITÓRIO, Jaldemir; GODOY, Manoel. (Orgs.). Tempos do Espírito: inspiração e discernimento. Congresso Soter 2016. São Paulo: Paulinas.